domingo, 24 de setembro de 2017

Episódios simples que coloco em versos


Há episódios muito simples
que coloco em versos:

um comentário, frase,
cenas que vi.

Gostei, versejo.

A pessoa que inspirou o poema
nem sempre
sabe disso.

É raro eu contar.

Episódios tão simples
que me achariam um simplório:
a malta quer
bombas, amores épicos, tragédias.



terça-feira, 19 de setembro de 2017

O caderno de rascunhos


O caderno de rascunhos
caso o encontrem
terá algo de
hieróglifos de Champollion:

uma sucessão de esboços
e rabiscos
difíceis de entender

mas por trás
uma mensagem oculta

que eu mesmo
nem sempre entendo.

Caligrafia
nunca foi
meu forte.


domingo, 13 de agosto de 2017

Não soubesse eu já estar morto


Poemas alheios

Ota Dokan (1432-1486)
esvaindo-se em sangue na banheira,
após o golpe inimigo

Não soubesse eu
já estar morto
- estaria agora a lamentar
da minha vida
a perda.


sábado, 22 de julho de 2017

Força para interromper


Ela arregalou os olhos
em um misto de
               surpresa e espanto
e com a mão tapando a boca
correu para o banheiro.

Eu, exausto
relaxado sobre a cama
me senti
               um crápula.

Poderia ter avisado
contudo
como fazer?

Um boquete assim
a gente não tem força
para interromper.



domingo, 16 de julho de 2017

Coisas mais simples e singelas


"Não vai me comer assim?"
ela perguntou
olhando sobre os ombros
de bruços
bunda empinada
sobre a cama grande.

Era um  monumento, pensei
e ninguém recusaria
mas cheio de cerveja como estava
tive medo
de não dar conta.

Vamos tentar algo mais simples,
respondi
e lá vamos nós de papai & mamãe
bêbados requerem
coisas mais calmas, simples, singelas.



sexta-feira, 30 de junho de 2017

Apenas em reflexos fugidios


Para A.

A viagem seguia modorrenta
até que vi
no vidro da janela refletido
o rosto de um dos passageiros.

"Ei, é o A.", pensei comigo
apenas para em seguida lembrar
que há uns dois anos
A. estava morto.

Nunca fomos muito próximos,
A. e eu.

Mas quando perdi meu filho
ele deixou uma mensagem
dizendo que eu poderia procurá-lo
a qualquer hora
-qualquer hora, não importa!-
frisou na mensagem
          quando eu precisasse.

Pouco tempo depois
ele próprio se foi.

Não me lembro de ter agradecido na ocasião.

Você sabe, estamos abalados, fora de órbita etc.
e só depois as coisas voltam
         ao tempo próprio.

Acho que não agradeci na ocasião, portanto.

E tampouco poderei mais fazê-lo.

A. está agora, com meu filho, em outras paragens
acessível apenas em reflexos
fugidios em vidro espelhado.


quinta-feira, 22 de junho de 2017

A mesma melancolia


o poema citado
é este

Acordei em ligeiro sobressalto
dentro de um
familiar cenário:

ônibus apagado
e gelado de ar condicionado

pela janela, a serra
parecia
de tão escura

uma massa de treva
noite adentro.

Pensei em escrever,
enquanto melancólico
esfregava olhos

um poema sobre isso.

Mas lembrei que já o fizera
há três anos

o mesmo cenário

a mesma serra noturna

o mesmo ar gelado

a mesma melancolia

          déjà vu

                    diriam alguns.



sexta-feira, 26 de maio de 2017

O escudo do poeta


Poemas alheios

Arquíloco de Paros (680-645 a.C.),
a partir da versão em inglês
constante em seu
verbete na Wikipedia

O soldado trácio inimigo
com alegria admirava o escudo
que eu deixara para trás,
tão belo e conservado era.

Que isso importa
se em segurança logrei escapar?

Que se vá o escudo
outro melhor ainda
-quem sabe?-
qualquer dia hei de ter.



domingo, 7 de maio de 2017

A primavera que desperta



Poemas alheios


Meng Hao-ran (689 [?]-740),
a partir da versão em inglês
constante em 
por François Cheng

Sonolentos não notamos
a primavera que desperta.
Pássaros cantam em toda parte-
mas, à noite, cantavam vento e chuva.
Quantas pétalas caíram?




quarta-feira, 5 de abril de 2017

Sobre a tela branca do papel


Poesia como pintura:

não tintas
e pinceis

mas dispostos sobre

          a tela branca
               do papel

palavras e versos.

O desafio, aqui

é impedir que a pena caprichosa
se perca em devaneios

e crie outra realidade
que não aquela
do modelo.

O desafio, aqui

é ver o inspirador ainda
em cenas
rudes
do cotidiano.

Com isso em mente,
teremos um poema

     de cores vicejantes

versos frescos como tinta

                   sobre lírica moldura.




sábado, 25 de março de 2017

Companhia para a vida toda


Não tenho amigos.

Digo
até os tenho
     mas à distância.

O destino nos separou a todos.

Alguns, anos depois
mal reconheci.

Melhor deixá-los para trás
uma doce lembrança
de tempos antigos.

Não me incomoda isso,
de ter poucos amigos.

          "Não fui amado pela única grande razão —
          Porque não tinha que ser",

disse Alberto Caeiro.

Eu, também, sem ser amado
ou sem sê-lo como gostaria
sozinho, eu e eu
quando vou ao bar é melhor.

Sem amigos e toda a
tagarelice
posso, em sossego,
sacar a caneta
e escrever poesia
porque, diabos

a poesia
já em si
          é companhia
                para a vida toda.




sábado, 4 de fevereiro de 2017

Digamos que eu fosse o escultor de meus sonhos


Digamos
que eu fosse
o escultor de meus sonhos.

Quero dizer,
ao dormir
me entregariam a chave e carta branca

para dispor
os oníricos elementos
a bel-prazer.

Gostaria de um bosque, por exemplo
com fontes e sombras bucólicas.

Mora ali uma fada-
     quem sabe?

Acrescentaria um lago
casa de lenhador
e, porque haveria reviravoltas no sonho
corceis, trovões, cometas cadentes
num cenário apocalíptico de batalha.

Acrescentaria a Hidra
e o Leão de Neméia.

Você, não acrescentaria.
Sonho, eu disse
     não pesadelo.



terça-feira, 24 de janeiro de 2017

E as pétalas desabrochadas


Ela se deita sobre mim
leve tal brisa
folha de outono plainando
em tarde dourada.

E as pétalas desabrochadas
sobre meu rosto
agora já flor primaveril
ofertando mel
à abelha
da minha língua.

E sob a investida
incansável
da abelha
a leveza se faz peso
grunhidos e tremores.

Saciamos a vontade
-flor generosa-
de mel que é abundante
ela de novo já pluma
e sorri, refeita, brisa morena
na tarde de outono.



sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Alegremente nos perdemos


Dos manuscritos de Abu Tawhid
circa 493- 596 Anno Hegirae  

é haram, bem o sei:

quando ela decididamente
afasta
     o véu
e, sem tirar os olhos
     dos meus

desce ao minarete da minha carne
lábios e língua
vorazes

haram, mas o que fazer
senão
fechar os olhos
em silêncio, a prece murmurada
entre gemidos
e suspiros

a carne é fraca,

     -astaghfirullah!

e entre gemidos
e suspiros

numa boca de moura
alegremente
nos perdemos



quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Se desmancha em brisa cálida


Dos manuscritos de Abu Tawhid
circa 493- 596 Anno Hegirae  

Dissolver-se
no oceano do não-ser

átomos se dispersam
como, no mar
das ondas a espuma

se desmancha
em brisa cálida.



terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Pequeno conto bancário


É silêncio, salvo
o ruído da máquina registradora.

Às vezes vozes da rua
apressadas ecoando

ou ainda sussurros
na mesa do gerente.

Ilusório
o reino do capital financeiro:
por baixo do silêncio da agência
choro e ranger de dentes
dos endividados.




quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Também em ruínas talvez eu


Tomei todas de tristeza
aliteração
desproposital
sob o campanário da igreja
e mal conservados
edifícios.

Também em ruínas
talvez eu
observando, da mesa de bar
antigas sacadas
de tempos mais simples.



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